
Memórias são carregadas de olhares e sabores, deleites e dores – um caldeirão grande e uma mistura sem fim.
Desde criança, aguardava com ansiedade, a chegada do mês de setembro, óbvio que a parte do calendário que cruzava a primeira e a segunda quinzena – A Festa de Setembro.
Ouvia minha mãe dizer que iria comprar uma roupinha nova, um calçado e o perfume de alfazema já estava garantido para participarmos da novena da padroeira.
Evidentemente, os primeiros anos de minha infância, o que menos me interessava eram os “benditos ou ladainhas da matriz”, meu desejo era comer maçã do amor e dar umas “corridas no parque”, aquilo tudo me comprazia.
A pobreza, que visitava meu lar não impedia a riqueza da devoção e os olhares fitos para o altar, as preces dirigidas e a voz materna ao lado, eram a expressão de que ao menos no período de 14 a 24 de setembro, o lanche garantido saciava a fome de comida e, sobretudo, de muita fé.
Era o tempo favorável, da meninice, de não ter preocupação com boletos, contas, era correr para os braços da felicidade, com direito a cachorro-quente e um copo de refrigerante, era tudo que precisava, meu lugar, meu mundo.
O tempo foi passando, a infância ficou para traz, as calças curtas deram lugar a moda juvenil, tudo supervisionado de perto por minha mãe, a dona do dinheiro e que ditava as regras.
Mas uma coisa crescia comigo, de forma natural e precoce, uma corresponsabilidade em ser cristão, viver a fé, experenciar as coisas do alto, lembro que aos nove anos fiz minha primeira comunhão e no ano seguinte já era catequista, a ensinar outras crianças.
E, assim se passaram trinta anos, mais precisamente trinta e um de serviço desinteressado, humilde até o momento da ruptura, sair de cena, permitir que outras lideranças pudessem ter a sua vez, de forma madura e saudosista revisito esta acertada decisão.
Contudo, agora já com os cabelos (poucos que restam), tingidos pela cor branca, me vejo na metade de minha existência, as obrigações mudaram, a face pouca coisa, mas mantenho a mesma essência do menino ajoelhado nos bancos da Catedral de Nossa Senhora da Guia, minha mãe do céu.
Agora, passeando entre as barracas de lanche, olhando os brinquedos do parque, sou mais um, envolto de memórias e histórias, elevando a voz e cantando: “Oh Senhora Da Guia, abrandai as dores” de um mundo perverso, de guerras, de dor e sem luz, leva-nos ao teu filho, Jesus!!!
E, sabe de uma coisa, agora já não sou mais enganado pela fake news de minha genitora, que aos meus pedidos de menino, retrucava: “Na volta a gente compra”.
Carlos Ferreira da Silva | Contexto News
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