
Um computador, um celular e uma cena recorrente na Educação do Ensino Superior do Século XXI – formato de aula on-line, à distância.
Tudo posto na escrivaninha (na qual já não se escreve nada), apenas um móvel estático para amparar a indumentária de um docente em construção.
Um ventilador com o pescoço quebrado para refrescar o calor mormente, uma mini biblioteca de fundo, na realidade uma estante de livros , pouco usados.
Uma extensão elétrica circunda quase todos os aparelhos, na sala a mãe olha seu rebento cumprir o mister de professor (que ela outrora havia dito que não via nele tal profissão).
O link está pronto e enviado via aplicativo de mensagens, e do outro lado da tela algumas carinhas timidamente abrem a janela ávidas por conhecimento.
A aula inicia, as boas vindas de praxe, a exposição do conteúdo, algumas interações, engajamento mínimo, talvez o modelo de aula não agrade tanto e os poucos que abrem o microfone são exaltados com euforia.
O que era para ser dificuldade ou empecilho ganha nova roupagem, daí me dou conta de que o processo ensino-aprendizagem sofre uma mutação bem à vista, um caminho sem volta, uma adaptação, uma disrupção.
Ora, se o patrono da Educação Brasileira, o Pedagogo Paulo Freire, era crítico ferrenho da educação bancária o que ele diria sobre o EAD? Breve pausa em minha conturbada mente por esta pergunta.
Na verdade, não se pode evocar o pensamento de Freire, nem tampouco, terei a petulância de imaginar a crítica que faria ao modelo de educação bancária, agora não presencial mas on-line, com resquícios de opressão ao mundo digital.
Como falar de protagonismo do estudante, se por questões sociais, financeiras ou estruturais, a internet trava todo instante ou a instabilidade faz cair não da carteira mas dá ambiência digital.
Reproduzimos, de certa forma, a educação bancária, ora porque o docente será quem abre a sala de aula, sem chave mas num click, quem dita as regras de uso da câmera e microfones, e compartilha o conteúdo não de livros físicos e, sim, um slide ou arquivo digital.
Pausa para o lanche. Evasão escolar nas redes. Aula retomada, atividade avaliativa explicada e ao final, quase num suspiro de alívio, docente e discentes se despedem, e as telas vão fechando, ladeadas por palmas virtuais e sem som, votos auspiciosos de presencial idade paira no ar midiático.
Carlos Ferreira da Silva | Contexto News
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