Investigação aponta que facção do Rio monitorava e comandava ações criminosas em Cabedelo

Segundo as investigações, integrantes da facção criminosa Comando Vermelho monitoram a rotina dos moradores de Cabedelo (PB) a partir do Rio de Janeiro — Foto: TV Globo/Reprodução

Investigações da polícia apontam que integrantes do Comando Vermelho estariam comandando ações criminosas em Cabedelo, no litoral da Paraíba, diretamente do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A denúncia foi exibida em uma reportagem especial do Fantástico neste domingo (10), na TV Globo.

Áudios, vídeos e relatórios revelam um esquema de monitoramento clandestino, controle territorial, intimidação de moradores e suspeitas de infiltração na administração pública municipal. Segundo os investigadores, a facção utilizava câmeras escondidas em diversos pontos da cidade para acompanhar movimentações em tempo real e fortalecer o domínio criminoso na região.

Enquanto turistas frequentam as praias de Cabedelo, moradores relatam medo constante diante da atuação da facção. Conforme as investigações, o principal nome apontado como líder do grupo é Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoca. Contra ele existem 13 mandados de prisão relacionados a crimes como tráfico de drogas, homicídios e organização criminosa. Mesmo foragido no Rio de Janeiro, ele continuaria coordenando ações na cidade paraibana.

Em um dos áudios interceptados pela polícia, criminosos comentam sobre a estrutura de vigilância instalada em Cabedelo. “Tem 30 câmeras geral”, afirma um dos integrantes da facção. Segundo a investigação, os equipamentos foram escondidos em postes, árvores e estruturas camufladas com fita isolante, transmitindo imagens em tempo real para traficantes instalados no Complexo do Alemão.

A polícia afirma que o sistema clandestino era utilizado para monitorar a movimentação de policiais, agentes públicos e integrantes de grupos rivais. Em bairros dominados pela facção, moradores relatam sensação de abandono e convivem com ameaças frequentes.

Vídeos obtidos durante as investigações mostram homens armados circulando pelas ruas e efetuando disparos para o alto. Segundo a polícia, os criminosos utilizavam o chamado “ponteamento”, estratégia usada para mapear territórios e eliminar rivais.

Em outra gravação, um morador mostra o carro da esposa atingido por tiros e pede para que inocentes sejam poupados. O pedido chegou até Fatoca, que respondeu em áudio: “A gente está numa guerra.”

Os investigadores também apontam que o grupo monitorava reuniões comunitárias e interferia diretamente na escolha de lideranças locais. Em uma gravação, criminosos acompanham pelo celular uma votação em uma comunidade e fazem ameaças veladas aos moradores. “Estamos presentes toda noite, toda madrugada”, dizem integrantes da facção em uma reunião registrada pela polícia.

As apurações revelaram ainda que traficantes discutiram o uso de drones com explosivos em Cabedelo. Embora o plano não tenha sido executado na Paraíba, especialistas afirmam que esse tipo de equipamento já é utilizado em comunidades do Rio de Janeiro controladas pelo Comando Vermelho.

Outro ponto investigado é a suposta infiltração da facção dentro da administração pública de Cabedelo. Segundo promotores, o grupo utilizava cargos públicos, contratos terceirizados e esquemas de rachadinha para financiar atividades criminosas.

As investigações apontam que os últimos quatro prefeitos da cidade são investigados por suspeita de ligação com organizações criminosas. De acordo com o Ministério Público, uma empresa terceirizada contratada pela prefeitura teria sido usada para empregar indicados da facção, causando prejuízo estimado em R$ 270 milhões aos cofres públicos.

Em depoimento à polícia, uma mulher apontada como gerente financeira da organização afirmou que funcionários ligados ao grupo eram identificados internamente pela sigla “FTK”, em referência a Fatoca. Promotores afirmam que mais de 100 pessoas indicadas pela facção ocuparam cargos ligados à prefeitura e à Câmara Municipal.

Segundo autoridades, o Complexo do Alemão também funciona como refúgio para criminosos foragidos de diversos estados. Em um áudio, Fatoca afirma que a favela é o “canto mais seguro” para criminosos, inclusive para aqueles monitorados por tornozeleira eletrônica.

A empresa Lemon informou, em nota, que emprega mais de 700 pessoas em Cabedelo e que passou a exigir certidões criminais negativas desde 2024. A empresa afirmou ainda que segue colaborando com as investigações.

A defesa de Fatoca declarou que não existem elementos probatórios que o vinculem aos fatos investigados. Já as defesas dos ex-prefeitos Vitor Hugo, Edvaldo Neto e André Coutinho negaram qualquer participação em irregularidades e afirmaram confiar na apuração dos fatos. O ex-prefeito Leto Viana não respondeu aos contatos realizados pela equipe da TV Globo.

>Confira a reportagem na íntegra: Home office do crime: como facção impõe terror e controla até prefeitura na Paraíba direto de morro no Rio

Ray Santana | Contexto News
*com informações TV Globo

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